Professor Doutor
Antonio Folquito Verona
Coordenador Geral do Fórum de Educação Popular de Lins.
São Paulo, 24 de julho de 2007.
Prezado Senhor,
Tendo sido convidada por V.S. para participar, como conferencista, do V Fórum Regional de Educação Popular do Oeste Paulista, através de carta a mim entregue pessoalmente pela Profa. Salete Elias de Silva Castro, em 24 de junho pp., venho neste momento comunicar-lhe, que, infelizmente não poderei comparecer a este evento que homenageará o meu marido Paulo Freire.
Não só a situação do transporte aéreo brasileiro que nos vem amedrontando a todos e todas, sobretudo depois da última tragédia ocorrida no Aeroporto de Congonhas, na semana passada, aeroporto do qual partiria e voltaria, mas minhas próprias condições físicas me impedem de estar, com gosto e alegria, amanhã, em Lins.
Estive, recentemente, por três semanas fora do Brasil onde contraí uma virose a qual permanece em meu corpo como uma gripe acompanhada de fortíssima fadiga que me vem impedindo de realizar as mais simples tarefas do cotidiano. Por este motivo não pude aceitar a oferta de V.S. que pôs à minha disposição um automóvel para me deslocar de São Paulo a Lins, amanhã, retornando no dia 26 à minha casa.
Espero, que neste momento de encontro de educadores e educadoras, seja encarada a questão ética que assola o Brasil e o mundo sob a égide do neoliberalismo e globalização da economia, que determinam a fragilidade da saúde pública, que neste momento me atinge pessoalmente, e tragédias como o do desastre aéreo que vitimou não somente 200 pessoas que perderam, em poucos segundos, a vida, mas a de seus familiares, de seus amigos e amigos atingidos “com a morte em vida”.
Causou-me perplexidade a voz emblemática de um pai de uma das vítimas do recente desastre aéreo, que declarou, com a mais profunda tristeza, chorando, corpo caindo para o lado, desolado: “Perdi meu filho....e a esperança em nosso país”. A esta postura própria da “morte em vida” contraponho a alegria jovem e esperançosa mais autêntica de Fabiana Murer, que estou presenciando agora pela televisão, ao receber a Medalha de Ouro como atleta de pulo com vara, que esta mesma sociedade brasileira, ao lado de seu esforço pessoal, pode lhe proporcionar.
Como seres inconclusos somos seres capazes de concretizarmos coisas contraditórias como essas, mas nossa vocação ontológica é sermos seres “condenados” a sermos esperançosos e não seres necrófilos, destruidores da vida, segundo a compreensão de educação de Paulo, meu marido. A esperança nos faz sorrir por dias melhores e quando declaramos que perdemos a esperança nada mais há a fazer: ou recuperamos a esperança ou morremos mesmo de alguma maneira. Vida e esperança se identificam. Perdemos a esperança ao morrermos.
Enfim, muito sucintamente, quero dizer que espero que o V Fórum entenda e discuta a questão da Educação Popular em seus aspectos mais amplos, como por exemplo, no da ética da vida, a qual meu marido tanto se empenhou, que se antepõe a do capitalismo atual --- a ética do mercado --- onde o valor supremo é o dinheiro, o capital. Aspecto determinante para a transformação dessa sociedade a qual condenamos e dela queremos nos libertar.
Por fim, quero participar a V. Sa. que pedi a Itamar Mendes, um de meus ex-alunos, que vem se dedicando, desde os anos 80, com seriedade e eficiência, à educação progressista e à práxis Freiriana, que me represente amanhã nesta festa da qual participarei à distância.
Com enorme alegria e esperança de bons trabalhos, certa da compreensão de V.S.,
Muito atenciosamente
Ana Maria Araújo Freire