Fórum  
CARTA DO PROFº. WILLIAM KANE
 
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Uma revisão do "V Fórum Regional de Educação Popular do Oeste Paulista – II Internacional".
Lins, São Paulo, Brasil, 25-28 de julho de 2007.

Liam Kane

Antecedentes

        Gerida pelo Partido dos Trabalhadores e famosa por práticas progressistas como o Orçamento Participativo, a cidade brasileira de Porto Alegre acolheu, em 2001, o primeiro Fórum Social Mundial, uma alternativa para a cúpula de líderes mundiais em Davos, na Suíça. Desde então, o Fórum Social Mundial tem ocorrido em diferentes países, tornando-se um importante foco de debate para ativistas por justiça social, agora identificado na cultura popular com o slogan: "um outro mundo é possível". O Fórum passou a inspirar e a subsidiar a organização de fóruns sociais em todo o mundo, em nível nacional e continental.

        Em Porto Alegre, também levou à criação de filiais de fóruns, como o Fórum Mundial de Sindicatos, o Fórum Mundial de Juízes e do Fórum Mundial da Educação. O Fórum Mundial da Educação provocou um grande impacto no Brasil, e, por sua vez, estimulando e também subsidiando fóruns de educação por todo o país: estes continuaram mesmo quando o Fórum Social Mundial moveu-se para outro lugar.

        Os fóruns de educação foram grandes eventos. No Fórum Mundial da Educação de Porto Alegre, em 2002, pareceu normal ver 3.000 pessoas freqüentarem as diferentes sessões organizadas em torno da cidade. Em 2003, o Fórum da cidade de São Paulo alegou ser o maior evento educacional da história do mundo, com aproximadamente 120 mil participantes.

        Em 2003, no interior do Estado de São Paulo, um grupo de educadores radicais e vigorosos na pequena cidade de Lins (população = 67.000), a sete horas de viagem de ônibus, a Oeste da capital, também criou seu próprio fórum educacional. Em português o Fórum foi chamado de "Fórum Regional de Educação Popular do Oeste Paulista" ou simplesmente: FREPOP. Eles sustentaram-no durante três anos consecutivos, em 2006 e 2007 internacionalizaram o evento, envolvendo educadores de fora do Brasil também, daí o título de "V Fórum Regional da Educação Popular (II internacional)".

FREPOP

        Eu participei desses dois fóruns internacionais em Lins e voltei para sempre muito impressionado e inspirado. É animador ver que tal evento acontece tão longe da habitual metrópole e é espantoso ver a energia e empenho dos organizadores. Embora exista um núcleo de ativistas, um grande número de participante-ajudantes se divide em equipes, cada uma delas encarregada de um aspecto da organização. As equipes incluem universitários, políticos radicais locais, professores / educadores, membros de diferentes movimentos sociais populares e ativistas de ONG. Durante os três dias, em julho de 2007 o fórum repercutiu com suas 29 sessões/debates, três a quatro debatedores principais em cada uma, seis "mesas-redondas" e mais de 36 oficinas e exposições. A organização em si foi uma grande conquista de toda a comunidade participante.

        A característica essencial do FREPOP é o seu aberto compromisso com a educação popular. Ele não tenta disfarçar isso, como freqüentemente acontece na nossa era neoliberal, numa tentativa de influenciar sorrateiramente os sistemas por dentro. Enquanto isso é por vezes necessária uma estratégia - muito familiar na Escócia e cada vez mais sedutora na América Latina – é tremendamente refrescante e honesto quando educadores radicais chamam as coisas pelos seus respectivos nomes e dispensam a linguagem instrumentista dos objetivos da educação profissional.

        Portanto, não só o FREPOP carrega o termo "educação popular" no título do Fórum, este compromisso é claramente explicitado em todas as sessões, não importa a particularidade do enfoque. Em 2006, o tema geral do Fórum foi "Educação Popular, Direitos Constitucionais e Participação e Controle Social", em 2007, foi "Educação Popular e o Direito à Informação, à Produção do Conhecimento e a Todas as Formas de Expressão". Exemplos de sessões individuais foram: "Educação Popular e o Teatro do Oprimido"; "Educação Popular e Acesso à Ciência e Tecnologia"; "Educação Popular e os Problemas da Infância no Brasil"; "Educação Popular e da Expansão da Cultura da Cana-de-Açúcar na Região"; "Educação Popular e Hip-hop".

        Os diferentes tipos de apresentadores e participantes, provenientes de uma vasta gama de grupos e organizações, construíam um diálogo verdadeiramente saudável e com diferentes tipos de conhecimento. A sessão “Educação Popular e o Teatro do Oprimido”, por exemplo, foi introduzida por um acadêmico, que ofereceu uma análise histórica das idéias e da importância de Augusto Boal. Então, um estudante de pós-graduação discutiu a sua experiência de levar grupos de bailarinos a favelas de São Paulo, onde se envolveram em uma forma de teatro do oprimido com participativa investigação. Duas pessoas nascidas e criadas em comunidades mais pobres, em seguida, falaram de como tinham chegado através de projetos de "teatro do oprimido" à condição de atores, do que isso significava para eles e de como eles passaram a se envolver nesse tipo de atividade.

        A sessão sobre "Educação Popular e o papel dos Cursos de Educação para Jovens e Adultos" apresentou dois contrastantes estudos de caso. Um dos cursos surgiu a partir de um projeto de "economia solidária" com pessoas que sobrevivem reciclando lixo; o outro foi criado como um curso convencional de educação para adultos, no âmbito das políticas públicas, mas no qual o educador tentou torná-lo o quanto possível um processo de “Educação Popular".

        Houve, ainda, uma sessão sobre "A globalização e seus efeitos: um enfoque a partir das reflexões de ativistas, ONG’s, governos e os trabalhadores", com uma série de debatedores, tendo cada um apenas 10 minutos de exposição. Eu estava inicialmente cético de como poderia ser útil nessa sessão, mas foi espetacular. Havia eminentes colegas de Cuba, Argentina, Peru e Senegal, todos com importantes contribuições, embora o principal impacto tivesse sido produzido por uma mulher representante do sindicato dos trabalhadores da cana-de-açúcar: suas condições de trabalho eram terríveis; a exploração incrível; e sua luta pela sobrevivência imediata era intensa, tudo isso a poucos quilômetros de distância do Fórum local. Como sempre é bom lembrar, ela mostrou a urgência de se estabelecer uma ligação entre a ação de educar e a mudança.

        Quando o Fórum terminou, um dos organizadores levou-me, juntamente com um educador popular do Senegal, para falar com pessoas envolvidas em diferentes tipos de lutas, incluindo uma visita a um acampamento do famoso Movimento dos Sem Terra. Para organizar uma investigação na América Latina eu, normalmente, tenho que gastar meses de antecedência negociando o acesso aos grupos e, uma vez lá, se torna difícil juntar as peças e ter uma noção exata do que está realmente acontecendo - em oposição ao que tenho lido ou pensado sobre o que acontece. Na companhia do tal guia confiável, no entanto, foi-me concedido o acesso instantâneo e privilegiado a um desses grupos e um mediador que poderia dar sentido às perguntas que formulava aos entrevistados e contextualizar as suas respostas para mim: consegui o equivalente a duas semanas de trabalhos em um único dia.

        Tal como outros encontrados na América Latina, pensei que meu guia pudesse servir como um exemplo paradigmático de como educadores universitários de base popular devessem realizar o seu trabalho. Ele se move sem problemas entre os mundos da academia e dos oprimidos, um dia debatendo filosofia em vários idiomas, o próximo organizando discussões com os camponeses sem terra sobre táticas de ocupação de novas áreas, por vezes, correndo riscos que fazem a nossa preocupação aqui parecer insignificante.

        O Fórum FREPOP não foi perfeito. O alojamento não era ideal e pode ter havido problemas com a temperatura e acústica das salas: contextualmente, no entanto, isso é quase inevitável. Mais importante ainda, e, ironicamente para mim, o Fórum não procurou aproveitar das possibilidades dos métodos de educação popular para envolver as pessoas em maior participação, discussão e interação social. Algumas das sessões tendiam a ser conduzidas por um orador, seguidas de perguntas ou intervenções do público. Mas o Fórum no seu todo é tremendamente inspirador: Eu nunca participei de um evento como esse, capaz de reunir uma expressiva variedade de universitários, trabalhadores, cidadãos e ativistas da comunidade. É um modelo útil para se almejar, levando-se em conta a extra-especial energia brasileira; acho cansativo só de pensar o quanto de trabalho de organização é necessário para fazer que tudo viesse a acontecer.

Professor de Educação e Língua Espanhola do Departamento de Educação Continuada de Adultos - Universidade de Glasgow (Reino Unido).

    

 
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